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19 Setembro 2017

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Feira reúne grupos de mulheres que cultivam a agroecologia no Baixo Sul (BA)

 

 


Por Gilka Resende¹

Com o lema “Sem feminismo não há agroecologia”, agricultoras familiares de 19 grupos promoveram feira com alimentos diversificados e saudáveis

“A agricultura familiar foi uma coisa maravilhosa que entrou na vida da gente”, define Dalvina Barreto dos Santos, presidenta da Associação dos Pequenos Agricultores do Calumbi I (Apac), do município Presidente Tancredo Neves, onde 19 grupos realizaram a I Feira Agroecológica das Mulheres do Baixo Sul, no interior da Bahia. A iniciativa, que contou com a organização do programa da FASE no estado e do Serviço de Assessoria a Organizações Populares Rurais (Sasop), dentre outros parceiros, teve como objetivo promover o encontro direto entre quem planta e quem consome alimentos, comercializando produtos saudáveis e dando visibilidade ao papel das mulheres na agroecologia.

“Mostramos o que a gente faz na nossa associação, como bolo de folha, puba, sequilhos e artesanatos. Temos uma cozinha comunitária e trabalhamos fornecendo alimentos sem agrotóxicos para a merenda escolar”, conta Dalvina. Além dos itens citados por ela, foram comercializados ovos, hortaliças, frutas e suas polpas, verduras, legumes, galinhas caipiras, beijus, andu, mangalô², temperos, aipim, batata, dentre outros.

Rosélia Batista, educadora do programa da FASE na Bahia, explica que o evento³, realizado no último dia 29 de julho, foi como um ponto de partida para a construção de um espaço coletivo e permanente da agroecologia na região. “Vamos pressionar para termos uma feira com periodicidade e que reúna grupos que já fazem outras feiras em suas comunidades. O objetivo principal não foi apenas comercializar produtos, mas também proporcionar uma troca de experiências e saberes. E nós presenciamos isso. Vários grupos de mulheres, de diferentes municípios da região, levaram suas sementes e mudas”, ressaltou.

Livre de atravessadores

As feiras livres são vistas pelas agricultoras e agricultores e por organizações que fortalecem a agroecologia como alternativas frente aos “atravessadores”, que compram a preços injustos e revendem os alimentos a terceiros, garfando a maior parte da renda gerada a partir do trabalho na agricultura familiar. “Estamos desenvolvendo nossos talentos. Muitas mulheres ainda não os colocam em prática. Quando a gente sai, mostra nosso produto e recebe mais encomendas”, comenta Fábia Chaves, vice-presidenta da Associação dos Pequenos Produtores Rurais da Derradeira (Aspad), do município de Valença. Ela, que integra um grupo de mulheres em sua comunidade, conta que já fez parte de muitas feiras. “Cada dia a gente aprende mais. Meu grupo trabalha com alimentos derivados do aipim. Somos quatro hoje, mas estamos trabalhando para a chegada de mais agricultoras”, relata.

A FASE e seus parceiros, como sindicatos de agricultores familiares e outras organizações, também têm se mobilizado para que as famílias consigam acessar políticas públicas, como o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) e o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA). Sobre isso, Rosélia expõe: “Essa é uma questão de segurança alimentar e nutricional. Queremos que os moradores dos municípios tenham referências para buscar alimentos saudáveis, não ficando prejudicados ao consumirem sem, ao menos, saberem a origem dos produtos”.

Gênero e saúde

“Além de ser uma questão de saúde pública e de segurança nacional, os agrotóxicos ameaçam a vida do planeta. Por essa razão, reafirmamos que não existe uso seguro de agrotóxicos. É necessário combater a ideia da existência de níveis aceitáveis de contaminação de alimentos, da água e do corpo dos trabalhadores e trabalhadoras”, pontua a Carta Política do III Encontro Nacional de Agroecologia (ENA)4, realizado em Juazeiro (BA), em 2014, pela Articulação Nacional e Agroecologia (ANA).

O depoimento de Fernanda da Silva, integrante do grupo de mulheres do Limoeiro, do município de Teolândia, reforça esse princípio. Ela confirma se sentir tranquila por comercializar alimentos sem venenos. “O trabalho na agricultura familiar ainda faz com que as mulheres criem sua própria independência financeira”, completa. Fernanda ainda destaca que “seria bom que não apenas as mulheres cultivassem sem químicos, mas sim todos os grupos”. “O câncer está matando dia a dia, e isso também tem a ver com a alimentação. O desmatamento está demais. Todo mundo devia abraçar a causa [da agroecologia]”, defendeu.

“Muitas mulheres nem sabiam de seus direitos, e através desse trabalho foram tendo conhecimento”, relata a agricultora Fábia. Rosélia ressalta que a FASE tem debatido questões de gênero como uma das estratégias para o fortalecimento da agroecologia e das mulheres como sujeitos políticos. “Isso também se faz nas feiras. Em Tancredo Neves, o evento foi protagonizado por elas. As mulheres mostraram que têm suas produções e que podem estar onde elas quiserem”, reforçou.

[1] Jornalista da FASECom informações da Rádio Web Cidadania.

 

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