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19 Novembro 2017

De acordo com a definição formulada na II Conferência Nacional da Segurança Alimentar e Nutricional (SAN), em 2004, a “SAN é a realização do direito de todos ao acesso regular e permanente

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Feira Agroecológica das Mulheres contra a Violência movimenta município de Camamu, no Baixo Sul da Bahia

 

“Sem Feminismo não há Agroecologia”. A frase ecoou fortemente no microfone na Praça do Fórum, em Camamu, logo nos primeiros momentos da VI Feira Agroecológica das Mulheres contra a Violência, no último dia 6 de outubro. A iniciativa foi realizada pelo SASOP, FASE, CESE, Escola Agrícola Comunitária Margarida Alves, Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais de Camamu, Sindicato dos Trabalhadores da Agricultura Familiar, Koinonia, com o apoio e empenho das mulheres agricultoras do Baixo Sul. A Feira foi marcada pelo lançamento da campanha "Pela divisão justa do trabalho doméstico", promovida pelo conjunto de entidades com foco nas famílias do campo.

Produtos agroecológicos foram oferecidos por aproximadamente 300 mulheres agricultoras, quilombolas, assentadas, marisqueiras, pescadoras do Baixo Sul e territórios do Sul e do Vale do Jequiriçá. Hortaliças, legumes, plantas medicinais, biscoitos, bolos e geleias, roupas e artesanato. Pelo sexto ano, a feira se realiza e se consolida como um espaço plural, que envolve diferentes níveis de articulação seja das entidades seja das mulheres envolvidas. Além da mostra de diversos produtos, a feira também contou com apresentações artísticas e culturais e oferta de serviços como assessoria jurídica, orientações sobre sexualidade e prevenção a DSTs, terapia auricular, preparação de turbantes e trançado de cabelos.

“A nossa intenção inicial era dar visibilidade à produção dessas mulheres nos seus quintais produtivos, mostrar os beneficiamentos, as flores, plantas medicinais, mas também dar visibilidade às manifestações culturais próprias dos territórios envolvidos, fortalecendo a autoestima e identidade das participantes. Com o passar do tempo ficou evidente que uma das maiores riquezas das feiras são as trocas e os encontros proporcionados”, explica Ana Celsa Bonfim, técnica do SASOP no Programa Mata Atlântica. Além dos produtos que são apresentados na feira, o espaço promove diálogos, trocas de receitas e saberes, intercâmbio de experiências diferentes entre as mulheres e o público visitante.

Para o coordenador geral do SASOP, Carlos Eduardo Leite, momentos de partilha e engajamento como a feira agroecológica lembram da importância da articulação política e produtiva de mulheres num momento político de recuos e perdas de direitos, especialmente das minorias sociais.

Assumindo os microfones como mestre de cerimônias do evento, a liderança do quilombo do Barroso, Ana Célia dos Santos Pereira acredita que a sexta edição da feira demonstrou uma maior maturidade das participantes e um reconhecimento da importância da mesma. “As mulheres conseguiram recursos para mostrar para Camamu sua produção, demonstrando vontade de realizar e firmeza de manter o evento, mesmo com dificuldades e os desafios colocados diante para as organizações que idealizaram a feira” revela.

Troca de Saberes – Para a educadora da FASE, Rosélia Melo, aprender com a experiência umas das outras é uma demanda importante. “A troca de experiências é algo muito valorizado pelas mulheres participantes da feira, porque implica em saber como cada uma supera dificuldades comuns. A começar pelos produtos expostos, fruto dos esforços delas, participando em todas as etapas: desde o cultivo à produção, passando pela venda – coisa que muitas vezes ficava nas mãos dos maridos, impedindo que elas tivessem acesso ao recurso fruto do próprio trabalho”, explica.

Visitar a feira é uma espécie de aula prática de agroecologia e seus propósitos para os mais jovens, como o estudante Igor Andrade Vieira, 18 anos, aluno da Casa Família Rural Igrapiúna, que pela primeira vez foi a um evento dessa natureza. “Aprendi aqui sobre a força das mulheres e sua capacidade de produção” afirma o estudante. Para a estagiaria do SASOP, Eliana Batista Santos, 17 anos, houve uma mudança de lugar: nos anos anteriores ela vendeu hortaliças, produzidas pela sua família. Dessa vez, ela retorna como uma estudante e atenta às desigualdades de gênero na agricultura. “Esse espaço é muito importante para vermos o desempenho das mulheres na agroecologia, um lugar onde há tantos preconceitos presentes”, reflete a adolescente.

A feira é um processo formativo, que envolve uma preparação que dura um ano inteiro, com reuniões e construções coletivas, que se iniciam logo na finalização de cada edição. “Assim que a feira se encerra, fazemos uma avaliação do processo, observamos como o evento aconteceu, os pontos fortes e fracos e como podemos encontrar soluções” partilha Marilene Silva, presidente do STTR de Camamu.  Segundo ela, ao longo dos anos o conjunto de organizações foi desenvolvendo um modo próprio de realizar o encontro, de modo que há um engajamento grande e o empoderamento é vivenciado não de modo retórico, mas vivencial. “Falar de empoderamento feminino significa afirmar o que quero e até onde quero ir”, afirma.

Pela Divisão Justa do Trabalho Doméstico - Além de ser um espaço para comercialização de alimentos agroecológicos, a feira se reafirmou como importante espaço político de afirmação dos direitos das mulheres do campo, especialmente na discussão do tema da violência de gênero. Nesta edição da feira, foi lançada a campanha Pela Divisão Justa do Trabalho Doméstico, tratando da importância da equidade das responsabilidades entre homens e mulheres dentro de casa.

Fruto de uma iniciativa da Rede Feminismo e Agroecologia do Nordeste, a campanha provoca uma reflexão sobre a desigualdade de direitos e a sobrecarga de responsabilidades das mulheres no campo – responsáveis pelo cultivo, pela família, pela educação dos filhos, pelos cuidados da casa, pela complementação da renda. “A campanha vem corresponder a esse desejo que elas trazem de que os homens possam evoluir e dar passos sólidos para uma igualdade – estando mais atuantes no ambiente doméstico. É um desafio aspirado por elas: ver os companheiros envolvidos com as tarefas domésticas, com a divisão do poder. A escola e a família tem papel decisivo para discussão desses temas e introdução dos homens nestas reflexões”, conta Janine Jesus França, educadora da Escola Agrícola Comunitária Margarida Alves. 

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