SASOP reúne lideranças e organizações parceiras para debater Fundos de Pastos

SASOP reúne lideranças e organizações parceiras para debater Fundos de Pastos

Entre os dias 14 e 16 de fevereiro, lideranças comunitárias, organizações parceiras e equipe técnica do SASOP estiveram reunidas, em Remanso, para debater quais as demandas e os desafios de uma assessoria técnica em Agroecologia nas áreas Fundos de Pasto. Na oficina, estavam presentes representantes de associações de Fundos de Pastos dos quatro municípios acompanhados pelo SASOP (Remanso, Casa Nova, Pilão Arcado e Campo Alegre de Lourdes) para encaminhar propostas que contribuam para que a atuação do esteja dialogando com as necessidades específicas dessas comunidades tradicionais. Para Ricardo Ferreira Barrense, liderança de Pilão Arcado, o maior desafio permanece a conquista do título definitivo da terra. “Se o governo dá título definitivo para as mineradoras, porque vamos aceitar apenas a concessão de uso? Queremos nossas terra regularizadas. Defendo isso!”, afirma. Outro desafio apontado por Ricardo é como envolver a juventude. “Há 20 anos, queríamos escola para nossos filhos, água de qualidade para beber, área onde plantar. O que planejamos há 20 anos conseguimos tudo. Hoje queremos apoiar o que o jovem planeja”, diz. Durante os três dias foram levantados elementos que nortearão os encaminhamentos para o trabalho do SASOP nas comunidades, incluindo a valorização das sementes nativas; a participação dos jovens e das mulheres e o estreitamento dos diálogos com núcleos de agroecologia das universidades do território (IFBA, Univasf, UNEB, Embrapa).  Hoje, o SASOP atua em mais de 50 comunidades tradicionais de Fundos de Pasto, nos 4 municípios, além de Juazeiro, somando um total de 720 famílias.

 

Conheça a história de algumas lideranças : 

 

Maria Estelina da Rocha, Comunidade Melancia, município Casa Nova (BA)

 

Maria Estelina tem 42 anos e mora na comunidade Melancia desde os anos 80. A comunidade foi construída por sua família. A associação de Fundo de Pasto foi fundada há 16 anos. Ela lembra que já morou em São Paulo por 8 anos, porque precisava trabalhar para ajudar os pais, mas, assim que conseguiu sua independência financeira, voltou para Casa Nova  com uma filhinha nascida na cidade grande. “Quando cheguei, meus irmãos estavam formando o movimento de Fundo de Pasto e logo me engajei. Tive um casamento de 10 anos, mas ele não queria que eu me envolvesse na luta. Aí tive que escolher. A luta não acaba, mas o marido acaba. Aí comecei. Era 1996”.

Nessa história de luta, o que mais marcou foram as mobilizações que faziam com pessoas de outros municípios pelo direito ao acesso à terra. “Isso marcou muito nossa luta porque a gente tomava chuva, ia para Salvador, Brasília, sem ter onde ficar. Virava a noite sem dormir e ainda tinha que se esconder da polícia que, quando via a gente mobilizado, vinha para cima”, lembra. Hoje possuem os títulos tanto das terras coletivas, quanto das terra individuais, mas ainda há ameaças. Segundo Estelina, a grilagem e os empresários chegam nas comunidades com documentos para as pessoas assinarem achando que é investimento, mas sem saber que estão entregando a terra. “Temos uma área de conflito. Em Areia Grande. Conseguimos derrubar três limiares do juiz, mas ainda temos risco de perder a terra porque o juiz diz que é dos empresários. A terra está ocupada por nossas famílias desde os anos 60 e agora querem dizer que é dos empresários”, conta.  A região da comunidade de Estelina abrange 4 comunidades. “Sou agricultora, crio bode, ovelha.  Meus filhos e irmãos criam abelha. Não tenho gado porque uma pessoa consciente do que é a convivência com o Semiárido não tem pode ter gado. Para mim a vida no campo não tem outra igual”, ressalta. Estelina tem uma filha e um filho que passaram a se interessar também pela associação. “Minha filha hoje é tesoureira da associação e o menino estuda na escola (Escola Família Agrícola) de Monte Santo, faz parte da associação e está fazendo trabalho com hortas orgânicas”, finaliza.

 

Ricardo Ferreira Barrense, Comunidade Baião, Pilão Arcado (BA)

 

A história de militante de Ricardo começou em 1986, com uns 30 anos de idade, quando começou a acompanhar as comunidades eclesiais de base. “A gente estudava o evangelho libertador, fazia curso de política sindical e foi daí que assumi a direção do Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras de Pilão por 11 anos”, lembra. Em 1997, fundaram a associação de pequenos produtores, mas sentiram que era limitada porque visava mais ao crédito. Foi aí que resolveram passar a associação para Fundo de Pasto, já que estavam correndo risco de perder a terra para os grileiros. “Durante 11 anos no sindicato, ajudei a fundar 26 associações de Fundo de Pasto. Daí para cá nunca paramos. Larguei a presidência do sindicato, mas passei para a coordenação da união das associações de Fundo de Pasto, que reúne as associações do município e articula com as centrais do estado”, conta.

Hoje, com 40 anos de luta, diz que o que mais ameaça as áreas de Fundos de Pasto é que as terras não estão ainda no controle dos moradores. Ainda são do Estado. “As mineradoras investem muito em pesquisa nas comunidades, degradam a caatinga tentando colocar energia eólica e isso amedrontou a gente. Eles pagam um valor bem baixinho para os moradores e desmatam uma área imensa. Isso diminui as terras em controle do povo do município. Temos só alguns títulos individuais, mas bem pouco. O estado agora quer dar concessão de uso, mas não é possível aceitar isso. A gente nasceu, viveu e toda a família da gente vai ficar ali naquela terra. Mas o título definitivo é liberado para mineradoras, mas para nos, trabalhadores, que somos os posseiros de verdade, só recebemos concessão”, explica.

Ricardo é agricultor e diz que sua vida é plantar fruta, cuidar de bicho, de abelha. Tem tudo na propriedade. Com 5 filhos e 6 netos, nenhum saiu da terra. Alguns moram na sede de Pilão Arcado, mas, nos finais de semana, vão para a comunidade. Ele lembra que passou seis anos em São Paulo e passou por muita dificuldade, trabalhando em todo tipo de serviço. “Meu único intuito era voltar para casa. Aqui que é lugar de se viver. A gente dorme de porta aberta, a gente não se preocupa. Diferente de quando estava lá, que todo dia tinha que mexer nas gavetinhas procurando uns trocados para comprar um pão, arrumar alguma coisa. A roça é o lugar da gente viver. Nós, que nascemos aqui no sertão, não fomos preparados para viver em cidade grande”, afirma.

Ricardo aponta que sua principal conquista em todos esses anos foi o aprendizado na convivência com a luta dos trabalhadores. “Tenho um diploma de saber as coisas sem ter ido para escola. Qualquer área que precise sei fazer. Sei administrar minha propriedade, uma  entidade. Aprendi com a experiência do tempo mesmo”. Ricardo lembra que nessa história também sofreu ameaças. Foi vítima de fazendeiros que entendiam que a terra era deles e também de pessoas da própria comunidade não aceitavam a ideia de defesa da terra. “Achavam que gente pobre não precisava de terra. Quem precisava da terra era o fazendeiro que tinha gado para criar. Fui intimado na delegacia de Juazeiro com pistoleiro do lado, mas nunca parti para violência. Minha luta era pacífica. As pessoas que eram aliadas dos fazendeiros, hoje somos amigos”, relata.

Na opinião de Ricardo, o trabalho do SASOP é impressionante.  “Se hoje temos uma potencialidade, uma produção muito forte, por exemplo de apicultura, foi ele que levou essa ideia com o incentivo das associações e sindicatos locais. Mesmo sem chuva, tem gente tirando um dinheirinho do mel. Na questão da sustentabilidade é um grande animador das pessoas nas comunidades, tentando mostrar que tem jeito na comunidade. Me sinto muito feliz e gostaria que o povo vivesse bem, que essa luta fosse confiável. Quero que a geração que está vindo aí acredite também na luta porque os exemplos que temos de quem sai pelo mundo é a pior coisa que tem”, finaliza.

 

Joaquim Ferreira de Macedo, Comunidade Lagoa do Pedro, Campo Alegre de Lourdes (BA)

 

 

Seu Joaquim tem 72 anos e conta que começou a luta pela terra na década de 90, junto com a Comissão Pastoral da Terra (CPT) e a Paróquia de Campo Alegre de Lourdes. Conta que andou por muitas regiões como Canudos para “pegar” experiências das associações e aí começou a entender que tinha uma grande necessidade de garantir o território. Em 2000, liderou a fundação da Associação de Fundo de Pasto, com 32 sócios, com o objetivo da defesa da terra.

Seu Joaquim é um defensor da natureza. Com 13 filhos, 21 netos e 7 bisnetos, sente que precisa  engajar novos associados, de preferência, jovens que tenham fôlego para enfrentar a caminhada. Diz que chora quando vê o desmatamento da caatinga e o tanto de lixo que tem no mato. “Essa é a minha luta, a minha preocupação. Foi o dom que Deus me deu. O amor à natureza. Crio um pouquinho de tudo, só não crio porco porque bagunçam tudo”,  conta. Para Joaquim, o SASOP tem ajudado muito na sustentabilidade das comunidades e agradece a Deus pelas conquistas que a comunidade já teve. “Eu digo: se não há Joaquim nessa comunidade, talvez ela nem tivesse nem nome. Porque a gente vê o pessoal querendo cuidar de sua propriedade, mas não tem preocupação com o coletivo, ficam esperando o poder público, achando que é o poder público que vai dar alguma coisa”, reflete o agricultor. 

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