Agroecologia e Solidariedade no enfrentamento à pandemia da covid-19

Na história do século XXI, certamente o ano de 2020 ficará registrado como um momento atípico, cheio de desafios e necessidades de adaptações urgentes, por conta do enfrentamento à pandemia do coronavírus, responsável pela covid-19. Mas, ao mesmo tempo em que de certa forma pareceu ter ficado em suspenso no ar, o período também foi marcado por muitas inovações, descobertas e por uma forte capacidade de reagir às demandas de distanciamento social e trabalho em casa. Nada disso exclui a forte tristeza pela perda de tantas vidas e pela irresponsabilidade de governantes. Nesse contexto, o Serviço de Assessoria a Organizações Populares Rurais (SASOP) tratou de reorganizar toda a sua ação, buscando articulação com parceiros e comunidades para fortalecer os vínculos, estabelecer medidas de enfrentamento à pandemia e proteger tanto as pessoas como as economias locais.

O primeiro caso de COVID-19, na Bahia, foi diagnosticado em Feira de Santana no dia 06 de março de 2020. Naquele momento, mais de 100 mil pessoas haviam sido diagnosticadas com a doença no mundo e mais de 80 países já registravam casos do novo coronavírus e o crescimento exponencial dos números de contaminações e mortes por dia assustava a todos. No dia 11 de março, a Organização Mundial de Saúde declarou a infecção causada pelo novo coronavírus como pandemia. Dois dias depois, 13 de março, seria confirmado o primeiro caso em Salvador.

Nesse mesmo mês, foi necessário repensar e reestruturar os fazeres, de modo a cumprir com as inevitáveis adaptações. Enquanto eram observados os primeiros casos na Bahia, a situação dramática de países europeus, como a Itália e a Espanha, era acompanhada diuturnamente nos noticiários. Ainda não se fazia ideia do que realmente poderia acontecer e a orientação mais clara e segura era “fique em casa”.

COMUNICAÇÃO ESTRATÉGICA

De imediato, para reforçar a ideia de não sair de casa ou da comunidade, o SASOP produziu uma série de cartões virtuais, os conhecidos cards, para dar corpo à campanha “O Campo contra o coronavírus”, estratégia de comunicação para repassar informações práticas de como lidar com a pandemia. Foram 16 cartazes ao todo, com dicas como “evite ir à sede”, “escolha um representante para as atividades externas”, “conserve as mãos sempre limpas” e “aproveite para apreciar o seu quintal”.

O SASOP também aderiu à mobilização pela sanção presidencial ao Projeto de Lei 786/2020, que autorizou a distribuição dos alimentos do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) às famílias dos mais de 41 milhões de estudantes da rede pública de educação básica em todo o país, chamando a atenção para a necessidade de manter a compra dos alimentos produzidos pela agricultura familiar.

Outra campanha abraçada pela instituição foi a de disseminação da proposta para fortalecimento do Programa de Aquisição de Alimentos da Agricultura Familiar (PAA), demandando o aporte emergencial de R$ 1 bilhão para esse mecanismo como solução emergencial para alimentar a população vulnerável. Capitaneado pela Articulação Nacional de Agroecologia, mais de 300 movimentos e organizações sociais do campo e da cidade foram signatários do documento, que visava a compra por estados e municípios e pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) de 250 mil toneladas de alimentos da agricultura familiar durante a pandemia.

Em artigo publicado pela equipe do SASOP no mês de maio na Revista Fórum, a instituição já chamava a atenção para os impactos na Segurança Alimentar e Nutricional da população por conta da pandemia e seus possíveis efeitos. No texto, além do reforço pontual ao PAA, defende-se aproveitar o momento para promover uma retomada efetiva do Programa de Aquisição de Alimentos, dentro de uma política de abastecimento mais ampla, permanente, e capaz de compreender a importância estratégica da agricultura familiar nesse processo.

Também no mês de maio, importante apoio foi dado às agricultoras da Articulação de Mulheres do Baixo Sul da Bahia, que resolveram partir para a ação diante da pandemia de coronavírus. Com apoio do SASOP e da Koinonia, elas se organizaram para produzir máscaras nas comunidades rurais do município de Camamu-BA. “Percebemos que o contexto pedia atitude, que o afastamento não podia nos desarticular”, revelou a técnica Ana Celsa, ao contar que a ideia das máscaras surgiu das discussões com as comunidades. Com o recurso conseguido, foram comprados tecido, linha e elástico para a montagem de kits que foram distribuídos aos povoados. A participação na costura foi voluntária e permitiu a confecção de mais de 500 máscaras, doadas para as famílias locais.

Outra ação, dessa vez conduzida pela Rede Agroecológica do Baixo Sul, foi a distribuição de cestas de alimentos e kits de higiene para comunidades em situação de vulnerabilidade social no território Baixo Sul da Bahia. O trabalho alcançou 600 famílias da região, em duas etapas, do dia 15 ao dia 18 de maio, e de 28 a 30 do mesmo mês. Pensada exatamente para mitigar os efeitos da crise ocasionada pela pandemia de coronavírus, a campanha contou com financiamento da Fundação Banco do Brasil (FBB) e além de promover a segurança alimentar e nutricional daqueles que recebem as cestas, beneficiou também mais de 100 famílias agricultoras  responsáveis por fornecer cerca de 60% dos produtos distribuídos.

O SASOP, a FASE e a ADSCAF foram responsáveis pela aquisição dos produtos, montagem e distribuição de 1.200 cestas ao todo, duas por cada família. Cada uma delas continha 6 kg de arroz e de feijão e 10 kg de produtos da agricultura familiar local, entre frutas, tubérculos e hortaliças, farinha de mandioca, e um kit de produtos beneficiados (como beijus e biscoitos). Desses, apenas os dois primeiros foram adquiridos no mercado convencional. Todo o restante foi comprado diretamente das famílias produtoras rurais, numa estrutura que se assemelha ao Programa Nacional de Aquisição de Alimentos (PAA), que serve também para lembrar como políticas estruturantes como esta são importantes. 

Atento a essa questão, o SASOP juntou-se às organizações dos/as agricultores/as familiares e pescadores/as artesanais que atuam na cidade de Remanso, no norte da Bahia, em sua denúncia sobre a dificuldade de inserir seus produtos nas compras da prefeitura pelo Programa Nacional de Alimentação Escolar. Em virtude da suspensão das aulas, uma nova resolução federal orientou a distribuição de cestas básicas às famílias dos alunos, mas os gestores locais insistiam que não seriam obrigados por ela a cumprir a regra dos 30% do PNAE. Uma perda significativa, que afeta a renda e a Segurança Alimentar e Nutricional da população.

JUNTOS À DISTÂNCIA

A partir de junho, o Sasop deu início à transmissão de lives e produção de videoaulas, junto com a elaboração de algumas cartilhas, em parceria com a CAR – Companhia de Desenvolvimento e Ação Regional, da Secretaria de Desenvolvimento Rural do Governo do Estado da Bahia. Este material foi encaminhado diretamente e também disponibilizado pela plataforma de vídeos youtube, com vistas a atender demandas formativas de jovens Agentes Comunitários Rurais, bem como agricultores, dirigentes de associações e grupos, gestores públicos e beneficiários de programas sociais. O foco da geração desse conteúdo foi a partir de atividades desenvolvidas pela equipe do Programa Mata Atlântica, no Baixo Sul da Bahia.

Um apoio importante foi para a realização da série “Guardiãs da Agrobiodiversidade”, produzida também pela Secretaria de Desenvolvimento Rural com vistas a dar visibilidade ao trabalho da mulher agricultora e ao sucesso de iniciativas como a Caderneta Agroecológica. Com depoimentos de 13 agricultoras divulgados ao longo de um mês a série traz relatos que revelam a importância dos quintais produtivos na economia e saúde das comunidades e como no contexto de isolamento eles puderam fazer a diferença. Todo o conteúdo segue disponível no IGTV do perfil do SASOP no instagram. A organização também esteve envolvida nesse período na promoção de três outras séries, em áudio: a “Prosas do Semiárido”; o programete “Sementes Crioulas” e a de “Agentes Comunitários Rurais”, todas produzidas pela SDR e à disposição do público nas redes sociais. 

Desde o início da pandemia, a migração quase integral para o ambiente virtual possibilitou maior dinâmica no contato com outras organizações, articulações, redes e coletivos, de modo que o trabalho integrado acabou se fortalecendo. Foi possível estabelecer tanto uma frequência de encontros como metas para serem atingidas em conjunto e em alguns casos, até encaminhar campanhas e projetos. Desses arranjos, destacam-se os trabalhos feitos em conjunto com a Articulação Semiárido Baiano (ASA Bahia) e a Rede ATER Nordeste de Agroecologia.

Com esta última, além de maior afinação sobre as propostas para  enfrentamento à covid-19, também foi possível partir para a ação no âmbito organizacional, com a criação de redes sociais para o coletivo, de um boletim semanal disparado todas as quintas-feiras e de um programete de rádio mensal, tratando de temas decisivos para o momento, mas igualmente importantes fora do contexto da pandemia.

SOLIDARIEDADE

Já com a ASA Bahia, foi criada a Campanha Bahia Solidária – do Sertão ao Litoral, iniciada no mês de julho e com mobilização prevista até dezembro. A tônica do período pedia mesmo ação em solidariedade às populações mais vulneráveis, praticamente desassistidas pelo poder público. ASA e parceiros, apoiados pelo Comitê Popular Solidário da Bahia e pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), visavam atender famílias de baixa renda em 12 diferentes territórios da Bahia e como meta a distribuição de 12 mil cestas de alimentos e kits de higiene, concomitante ao repasse de informações preventivas para as famílias rurais e das periferias urbanas.

Para sua efetivação, a iniciativa buscou mobilizar doações de indivíduos e empresas, em dinheiro ou gêneros alimentícios, para a montagem das cestas entregues às famílias em situação de insegurança alimentar. E para visibilizar todo o esforço, a articulação utilizou como estratégia a realização de shows virtuais ao vivo, com a participação de bandas, poetas, cordelistas e a animação de saber o verdadeiro valor daquela ação para os beneficiados. Considerada uma campanha de êxito, até o mês de novembro foram arrecadados mais de R$ 65 mil em dinheiro, quase 98 toneladas de alimentos, 4.376 kits de higiene, 7.105 máscaras e 6 mil cestas básicas.

Por fim, em parceria com a Terre Des Hommes Suisse (TDH), ActionAID e Pão para o mundo, o Sasop lançou no mês de novembro a campanha sobre Segurança Alimentar e Nutricional com o mote “Comida de Verdade”. A iniciativa permitiu produzir folders, cartazes e uma série de três programetes de rádio, a fim de estimular agricultores e agricultoras, com suas famílias e comunidades na região do semiárido, a uma alimentação saudável e orientá-los para uma boa escolha e o melhor aproveitamento dos alimentos. Tudo isso tendo as escolas como foco de distribuição dos materiais.

Apesar de em alguns casos terem sido medidas bastante radicais, mas que se mostraram necessárias, urgente e acertadas, o enfrentamento à pandemia do novo coronavírus foi especialmente eficaz porque contou com muita articulação e participação. O mais importante foi a conscientização pessoal e envolvimento com cada uma das causas levantadas, seja na suspensão de atividades presenciais a fim de evitar aglomeração, nos trabalhos educativos em programas de rádios e redes sociais, nas orientações diretas às famílias, nas campanhas de solidariedade aos mais vulneráveis e apoio aos projetos da agricultura familiar. O contexto de isolamento, impensável até o início do ano de 2020, mostrou que é possível avançar nas situações mais adversas, desde que unindo forças em prol dos objetivos comuns.

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