Projeto Sementes Crioulas conclui implantação de três sistemas agrícolas resilientes em sua primeira fase

Segunda fase do convênio celebrado com o governo do estado da Bahia deve ser iniciada no primeiro semestre de 2021

O Projeto Sementes Crioulas se propõe a fortalecer o trabalho desenvolvido pelas famílias agricultoras, no resgate, multiplicação e conservação das espécies de interesse econômico-ecológico, nas comunidades rurais onde está sendo executado. Em sua primeira etapa, encerrada no mês de fevereiro, foram implantados três sistemas agrícolas resilientes, que tiveram como base o Diagnóstico da Agrobiodiversidade, realizado a partir da sistematização das informações das oficinas realizadas com grupos de guardiãs e guardiões da agrobiodiversidade no semiárido baiano. As atividades são financiadas pelo governo baiano por meio da CAR/SDR e tem cofinanciamento do FIDA e parceria com a Embrapa Semiárido. 

Os grupos participantes foram identificados pelas equipes de Assessoria Técnica Continuada (ATC) das entidades executoras do programa Pró-Semiárido nos territórios Sertão do São Francisco e Piemonte Norte do Itapicuru, como o SASOP, COOPERCUC, IRPAA e SAJUC. Durante as oficinas, os guardiões e guardiãs puderam expor suas práticas de uso e conservação de diversas espécies de plantas nativas, bem como do manejo de plantas e animais localmente adaptados.

Os resultados das oficinas dos diagnósticos da agrobiodiversidade ajudaram a sistematizar as transformações ocorridas ao longo do tempo nas práticas agrícolas das comunidades, evidenciando quais tipos de espécies e variedades de plantas, e raças de animais, deixaram de ser manejadas, e quais novas surgiram. “Esses momentos promoveram uma importante troca de conhecimentos entre eles, a partir dos trabalhos desenvolvidos por suas diferentes comunidades, e as equipes técnicas também puderam se aprofundar nas práticas de cada participante”, explica Victor Maciel, técnico do SASOP que acompanha o programa. 

Sistemas Agrícolas Resilientes

No primeiro convênio do Projeto Sementes Crioulas foram implantados 3 sistemas agrícolas resilientes. O primeiro está localizado na comunidade Lagoinha, município de Casa Nova; o segundo está na comunidade Barreiro do Espinheiro, município de Campo Alegre de Lourdes; e o terceiro sistema agrícola resiliente localiza-se na comunidade Sítio do Meio, município de Campo Formoso. Após os diagnósticos da agrobiodiversidade, as equipes técnicas identificaram locais de roçados que estavam sem produzir e que, ao mesmo tempo, eram apontadas pelas comunidades como estratégicas, por estarem em um local de fácil acesso para o grupo de guardiões e por haver fonte de água disponível.

A proposta também foi a de animar outros grupos de interesse do Projeto Pró-Semiárido, que já houvessem começado a implantar áreas de produção de forrageiras, para que, além de agregar outros guardiões e guardiãs à atividade, também pudesse incrementar suas áreas de ensaios forrageiros com maior variedade de espécies. Dentre os objetivos para essas áreas, espera-se que elas se tornem locais de produção de plantas que componham a alimentação das famílias, de espécies forrageiras para os animais, além de promoverem a fertilidade química e recuperação do solo e permitir o máximo do equilíbrio ecológico a partir da diversidade cultivada. 

“É por causa destas várias funções que essas áreas agrícolas são consideradas como sendo sistemas, na medida em que um cultivo está em equilíbrio com outro, e o conjunto favorece a estabilidade de outros organismos vivos”, diz Victor, ao afirmar que as condições geradas por esses sistemas agrícolas biodiversos os tornam mais produtivos, saudáveis e com maior resiliência frente aos possíveis eventos adversos, como estiagens prolongadas, migração de insetos-praga, dificuldades econômicas, dentre outros. “Isso se torna possível quando há uma junção da diversidade de plantas nativas e localmente adaptadas, que tenham aptidão entre si, com práticas de conservação do solo e da água, e o uso de produtos orgânicos na fertilização e controle de agentes causadores de desequilíbrio nos cultivos”, complementa.

Todas as áreas possuem um sistema de bombeamento solar para que ocorram irrigações controladas nos momentos que as plantas necessitam de aporte de água. Foram implantadas, pelo projeto, três variedades de palma forrageira, além da aquisição de mudas de girassol, gliricídia, leucena, erva-sal, bem como sementes de feijão de corda, sorgo, milho, algodão mocó, dentre outras espécies. Essa diversidade vai se juntar às espécies e variedades levadas pelos guardiões e guardiãs para serem trabalhadas nos sistemas agrícolas resilientes. As áreas terão acompanhamento técnico das equipes de ATC do Projeto Sementes Crioulas e do Pró-Semiárido, com monitoramento da fertilidade e análises químicas dos solos, avaliação do uso da água de irrigação e da presença de insetos e microrganismos.

Os sistemas agrícolas resilientes fortalecem a autonomia e soberania das famílias com relação à aquisição de sementes, com sua produção própria, livres de produtos químicos e de contaminação por variedades transgênicas, como tem ocorrido com as sementes de milho crioulo. As áreas cultivadas podem ainda se tornar referência ao se tornarem livres de transgênicos, se forem seguidos todos os cuidados no plantio e nos tratos culturais das plantas cultivadas. Essa produção poderá em breve abastecer os bancos de sementes familiares e os bancos comunitários, consolidando os estoques de sementes crioulas das comunidades nos territórios rurais e animando a articulação da Rede Sementes da Terra, que é a rede dos guardiões e guardiãs da agrobiodiversidade da Bahia.

Próximas ações

O segundo convênio a ser celebrado entre o SASOP e a CAR, no âmbito do Projeto Sementes Crioulas, prevê a continuidade das ações já iniciadas, com a implantação de mais três sistemas agrícolas resilientes, em caráter de ação coletiva junto aos grupos de guardiões, além de outras atividades que valorizam o trabalho das famílias agricultoras. Está prevista a implantação de 40 canteiros da agrobiodiversidade, o que permitirá a conservação e multiplicação de espécies e variedades de plantas mais raras e frágeis nos espaços dos quintais produtivos das famílias, além de 20 galinheiros que terão a função de serem núcleos de conservação de raças localmente adaptadas, como as galinhas de capoeira selecionadas pelas famílias.

São previstos também intercâmbios intermunicipais entre os guardiões e guardiãs e a segunda edição da feira das sementes crioulas. Cada tipo de atividade a ser implementada ocorrerá por meio de oficinas de formação teórica e prática, como forma de promover a troca de conhecimentos entre equipes técnicas e guardiões da agrobiodiversidade, seguindo os procedimentos necessários de biossegurança orientados pelos protocolos adotados pelas organizações de ATC.

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