Profetas da chuva e Laboratório da UFAL preveem inverno bom no Semiárido entre os meses de fevereiro e maio

Segundo o coordenador do Laboratório de Análises e Processamento de Imagens de Satélites (Lapis), Humberto Barbosa, as chuvas ocorrem devido ao fenômeno La Ninã. O profeta Chico Vitôr observou que os Ventos de Aracati indicam inverno com bastante chuva

Por Adriana Amâncio – Asacom

No Lapis, professor Humberto Barbosa, analisa os mapas, que indicam influência do La Niña sobre temperatura das águas do oceano pacífico, trazendo muita chuva para o inverno no Semiárido – Foto: Acervo UFAL

Os nove estados do Nordeste e a região Norte de Minas Gerais, que compõem o Semiárido brasileiro, terão um bom volume de chuvas entre os meses de fevereiro e maio de 2022. O mês de fevereiro deve concentrar os veranicos, com períodos de maior estiagem; enquanto o mês de abril deve ser o mais chuvoso da estação. As previsões são resultado das observações do Laboratório de Análises e Processamento de Imagens de Satélites (Lapis), coordenado pelo professor e pesquisador Humberto Barbosa. 

O profeta da chuva de 70 anos que, há mais de 30,  faz previsões observando sinais da natureza, Francisco Vitor de Araújo, conhecido como Chico Vitôr, faz coro às previsões do professor Humberto. Segundo ele, os Ventos de Aracati começaram no tempo certo, no mês de julho, ou seja, logo após o quarto chuvoso no Semiárido cearense, que ocorre no fim de junho. Os Ventos de Aracati têm início no município de Aracati e seguem até a Serra do Araripe. “Quando ele se inicia no tempo certo e corre direitinho toda noite, é sinal de que o inverno vai ser de chuva”, afirma. 

Influência do La Niña – Analisando os mapas, o professor Humberto afirma que as chuvas esperadas para o Semiárido são decorrentes do fenômeno La Niña, que resfria as águas do Oceano Pacífico Equatorial. “É um [fenômeno] La Niña clássico, que começou forte, foi perdendo força, mas ainda assim, vai influenciar nas chuvas nos próximos meses”, explica.

O professor Humberto orienta que “àqueles agricultores que possuam um solo razoável, ao perceberem a umidade, iniciem a plantação”, recomenda. Na análise mês a mês, o pesquisador explica que “o mês de fevereiro, que é o início das chuvas, chove um pouco, depois demora algumas semanas para voltar a chover. Março já começa a melhorar, abril será excelente, e maio, tá na média; não terá nem excesso de chuva, nem falta de chuva”, finaliza.

O profeta Chico Vitôr segura a casa do João de Barro, construída na direção do poente, indicando inverno bom – Foto: Acervo pessoal

O que diz a natureza – Seu Chico, que também é um guardador de experiências populares, realizou o seu diagnóstico sobre as chuvas com base em outros sinais da natureza. “Eu observei o João de Barro e vi que ele construiu a sua casa na direção do poente. No dia 18 de outubro, eu vi que se formou uma barra na hora do sol se pôr, tudo sinal de chuva”, explica. Seu Chico realizou ainda a experiência de Santa Luzia, que consiste em colocar seis pedras de sal do lado de fora da casa, identificadas com os nomes dos meses, que se seguem de janeiro a junho, justamente o período do inverno. Ao amanhecer, o agricultor observou que todas as pedras haviam se dissolvido bastante, indicando que deve cair muita chuva em todos os meses.

Os resultados das previsões de Seu Chico coincidiram com as de outros 80 profetas, que realizaram experiências semelhantes, com quem ele se reuniu, no último dia 6 de Janeiro, no Encontro de Guardadores de Sementes e Experiências de Chuva, realizado, há 21 anos, no Sítio Aroeira, no município de Orós, estado do Ceará. Também participaram deste encontro, 15 guardadores/as de experiências populares, que são responsáveis por transmitir os saberes populares locais de geração para geração.

“Depois do encontro, o Honório [Jacometto], que faz reportagem para a TV Diário de Fortaleza, se manifestou, dizendo que tudo que nós dissemos sobre as chuvas, a Fuceme disse também,” relembra. Fuceme é a Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos, órgão responsável por realizar pesquisas sobre meteorologia e recursos hídricos no Ceará. 

É hora de plantar – A oscilação das temperaturas no Oceano Atlântico, observa o professor Humberto, também influencia na ocorrência das chuvas. As análises do Lapis mostraram que as águas da Costa do Nordeste diminuíram a temperatura, após um forte aquecimento. Esse movimento justifica a redução na ocorrência de chuvas no mês de fevereiro. Por essa razão, o professor orienta ao/a agricultor/a iniciar a plantação. “Se ele [o agricultor], pela sua experiência, tiver um solo razoavelmente bom e que recebeu água, deve iniciar a plantação.” Plantando ainda na pré – estação, até o fim do mês de janeiro, o/a agricultor/a evita que a germinação ocorra em fevereiro, período com menos chuva.

O professor da UFPE e vice- Coordenador do Observatório Nacional da Dinâmica da Água e do Carbono no Bioma Caatinga (OndaCBC), Rômulo Meneses, define um bom solo como aquele que é “rico em matéria orgânica, proveniente da vegetação, das folhas que caem, das raízes que crescem, acumulando húmus”, explica. Por outro lado, solos que tiveram a sua vegetação removida, que receberam pastagens e se tornaram campos agrícolas perderam nutrientes e matéria orgânica e se tornaram mais compactados, perdendo a sua capacidade produtiva.  

Agricultores/as aproveitam as chuvas e o solo úmido para lançar as primeiras sementes – Foto: Acervo ASA

Cuidados com o solo – Tanto para quem tem solos ricos e produtivos, quanto para quem tem solos em fase de degradação, o professor Rômulo indica a adoção da agricultura “baseada nos princípios da agroecologia e da agrofloresta, que não usa tanta mecanização, que repõe matéria orgânica para o solo, que preserva as plantas e a cobertura de palhada, tudo isso mantêm o solo mais fértil”, recomenda.  

Citando a frase “A ecologia do Nordeste é formadora de árvores” do pesquisador Guimarães Duque, dita no século XX, o professor destaca ainda que “o equilíbrio da Caatinga são as árvores; muitas pesquisas indicam que o modo de cultivo ideal para o Semiárido é a agrofloresta, no qual se mantém árvores, cultivos e pastagens misturados.”

Por fim, o professor chama atenção para  a importância de manter a vegetação no solo para preservar a água e reter os nutrientes. “O clima tem uma influência importante na formação do solo, a quantidade de chuvas faz toda diferença. Por isso, no Semiárido, é comum, em regiões mais secas, se vê 50 centímetros de solo e o resto é rocha. Se cai uma chuva forte em um solo sem vegetação, além da água não ficar retida, ela arrasta os poucos nutrientes que têm ali”, alerta.

Seu Chico Vitôr, além de profeta, também é poeta e com versos do poema “Quando o Sol do Sertão se transforma”, nos transporta para a comunidade rural de Poço Agrite, em Icó, no Semiárido cearense, onde ele vive, e onde a chuva cai forte desde o mês de dezembro. 

“Quando chove o Sertão todo se transforma em alegria. O verde assume o lugar e a seca se distancia. (…) O sertanejo animado vai cuidando da plantação, é linda a transformação e todo o ser fica contente. Vai brotando da terra a semente, que ele plantou com suas mãos, e que com fé ele espera ver ela transformada em grão.

Mapa da precipitação, referente à segunda semana de janeiro, que confirma chuvas no Semiárido, mas aponta seca na região Oeste do Brasil – Fonte: QGIS

Deixar uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado.