Memória dos encontros de agroecologia é reunida em novo portal

Objetivo da plataforma é registrar grandes marcos do processo de transição agroecológica no Brasil, facilitando acesso a atividades e resultados dos Encontros Nacionais de Agroecologia, desde 2002

Notícia do site O Cafezinho

Momento Cultural durante IV ENA, realizado em Belo Horizonte, em 2018. Fotografia de Cecília Figueiredo/ ANA

A Articulação Nacional de Agroecologia (ANA) lançou nesta terça-feira (05) o portal ENA Agroecologia, que reúne a memória dos quatro Encontros Nacionais de Agroecologia (ENA) promovidos pela entidade, movimentos do campo e organizações parceiras, desde 2002.

Visite o portal: https://enagroecologia.org.br/

Lançada em live pelos canais da ANA no Youtube e no Facebook, a plataforma enagroecologia.org.br facilita a consulta e acesso às atividades e resultados dos eventos, por meio dos quais o movimento agroecológico tem ganhado impulso e escala na promoção da produção sustentável de alimentos saudáveis no Brasil.

“Os ENAs deram muitas sementes, mas uma das coisas mais importantes foi fazer os agricultores e agricultoras dos vários territórios desse Brasil se encontrarem para construir essa identidade própria e compreender que a gente não estava sozinho”, avaliou, durante a live de lançamento, Roselita Vitor, liderança do Polo da Borborema, na Paraíba. “Se a gente estava aqui defendendo as sementes crioulas, as ‘sementes da paixão’, em outros lugares tinha camponeses e camponesas fazendo essa mesma luta”, exemplificou.

Entre as novidades do portal estão os novos cadernos temáticos do IV ENA, que reuniu mais de 40 mil pessoas, ao longo de três dias, em Belo Horizonte (MG), em 2018, com o tema ‘Agroecologia e Democracia Unindo Campo e Cidade’. Organizadas em sete volumes, as publicações estão disponíveis para download https://enagroecologia.org.br/cadernos-do-iv-ena/

“Os ENAs são os momentos máximos de expressão ou grandes marcos referenciais de uma luta que, evidentemente, não começou no primeiro ENA, é uma luta muito longa, é uma marco referencial de lutas populares”, situou o agrônomo Paulo Petersen, coordenador-executivo da AS-PTA – Agricultura Familiar e Agroecologia .

Mobilização expande a agroecologia
Membro do Núcleo Executivo da ANA e da diretoria da Associação Brasileira de Agroecologia (ABA-Agroecologia), Petersen aproveitou para enfatizar que “o ENA não inaugurou essas lutas, ele requalificou, reposicionou, dando outro sentido, mas, certamente bebendo das raízes e origens do nascedouro de muita gente que durante muito tempo lutou pelos mesmos valores e pelas mesmas práticas que nós defendemos”.

Para as lideranças, entre os principais resultados dos encontros nacionais está a formação e expansão de redes regionais e temáticas que sempre ocorre após cada um dos eventos. A articulação de populações indígenas em torno de suas práticas agroecológicas está entre os exemplos desse papel mobilizador desempenhado pelos encontros.

“No IV ENA, como um divisor de águas, tivemos uma plenária indígena, com uma programação construída pelos povos indígenas, com mais de 60 povos diferentes e mais de 100 pessoas”, relembrou Leosmar Terena, da Terra Indígena Cachoeirinha, em Miranda (MS), coordenador do Coletivo Ambientalista Indígena de Ação para Natureza, Agroecologia e Sustentabilidade (CAIANAS). “A gente se sente mais fortalecido, enquanto movimento indígena, porque conseguiu estabelecer uma relação de parceria com outros grupos de agroecologia no Brasil”, frisou.

Os ENAs anteriores ao de Belo Horizonte ocorreram em Juazeiro (BA), em 2014, no Recife, em 2006, e no Rio de Janeiro (RJ), em 2002. Ao longo desse período, os encontros, potencializaram o movimento em todo o Brasil, levando as práticas agroecológicas a se tornarem mais conhecidas no meio rural e urbano e também a serem objeto de políticas públicas cada vez mais consolidadas, em âmbito federal, estadual e municipal.

“Construímos muita coisa, em nível nacional e de integração de pessoas nesse movimento, que faz com que todos compreendam e queiram vivenciar a agroecologia e a humanidade dos nossos territórios”, destacou Nilce Pontes, agricultora do Quilombo Ribeirão Grande, de Barra do Turvo (SP), integrante da ​​Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (CONAQ).

Entre as centenas de documentos reunidos na plataforma, estão as cartas políticas elaboradas em cada encontro, facilitações gráficas de seminários territoriais, plenárias e seminários temáticos, consolidando a agroecologia como uma ciência em construção.

Entre fotos, áudios e vídeos, o portal traz peças audiovisuais que ilustram as dinâmicas e o conteúdo dos encontros promovidos pela ANA e parceiros, reunindo centenas de lideranças de múltiplos territórios agroecológicos, e que documentam os debates sobre temas como ‘Soberania e Segurança Alimentar na Construção da Agroecologia’, ‘Construção do Conhecimento Agroecológico’ e ‘Financiamento da Transição Agroecológica’, entre outros.

Diálogo e convergência de movimentos
Para a antropóloga Maria Emília Pacheco, os grandes encontros, incluindo o Encontro Nacional de Diálogos e Convergências, em 2011, em Salvador (BA), foram também oportunidades para estabelecimento de novas parcerias e alianças, junto ao movimento da economia solidária, da justiça ambiental, do feminismo e também da saúde coletiva, que resultou em formulações conjuntas importantes.

“Passamos a entender a luta por terra e território intimamente associada com a justiça ambiental, passamos a conceber a importância de fazer a defesa da saúde associada à perspectiva de alimentação saudável e combate aos agrotóxicos e transgênicos”, relembrou Pacheco, que é membro do Núcleo Executivo da ANA e assessora da FASE – Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional.

O conteúdo reunido no portal demonstra como a transversalidade das temáticas agroecológicas foi amadurecendo ao longo desse processo, até se encontrarem hoje como uma das respostas mais abrangentes a crises sociais, ambientais e econômicas que a humanidade vem enfrentando. Atualmente, as perspectivas de aumento da produção agroecológica são motivadas, por exemplo, pela necessidade de adequação ambiental de propriedades rurais e pela urgência na produção de alimentos de forma descentralizada e diversificada.

“Fomos entendendo crescentemente que é preciso compreender e acentuar a importância da agroecologia para a saúde, o quanto é importante trazer para o debate as experiẽncias que esfriam o planeta, relacionando mudanças climáticas e seus impactos, mecanismos de mercado e a agroecologia como alternativa, em uma construção que veio ganhando cada vez mais sentindo”, relembrou a antropóloga.

“Essa é a fundamental missão para nós, que a sociedade compreenda cada vez mais os sentidos e objetivos da agroecologia, essa construção coletiva que se associa a outros movimentos e seus lemas que são muito fortes e representam um compromisso coletivo de uma nova sociedade”, concluiu.

Marcando o início das celebrações pelos 20 anos da Articulação Nacional de Agroecologia, em 2022, o conteúdo do portal ENA Agroecologia foi elaborado por comunicadores e comunicadoras populares que participaram das diversas edições do ENA, sob articulação da Secretaria Executiva da ANA e desenvolvimento da Cooperativa Eita.

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